Rede dos Conselhos de Medicina
Hanseníase: reflexo da desigualdade social

José Hiran da Silva Gallo

Diretor-tesoureiro do Conselho Federal de Medicina

Pós-doutor e doutor em bioética

Silenciosa e negligenciada pelas autoridades sanitárias, a hanseníase acumula milhares de vítimas ano após ano no Brasil. Entre 1999 e 2018, foram diagnosticados 768.215 casos desta doença, que pode ser prevenida com facilidade.

Em Rondônia, neste período, o acumulado chega a 19.795 notificações. Na Região Norte, o Estado perde apenas para o Pará, que tem quatro vezes mais ocorrências, e para o Tocantins, que tem uma incidência 17% maior, conforme revelam dados da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD).

No Brasil, mesmo com campanhas educativas, a detecção de novos casos ainda aponta uma situação preocupante. Em média, há 30 mil novos registros por ano. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), essa situação coloca o Brasil no segundo lugar no mundo em casos de hanseníase, atrás apenas da Índia, que em 2017 apresentou 126.164 registros.

A hanseníase é uma doença que prospera em locais onde o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é baixo. Ou seja, a desigualdade econômica e social, com dificuldade de acesso a saneamento, coleta de lixo, água tratada, entre outros fatores, torna o ambiente favorável à sua proliferação.

Como janeiro é o mês dedicado à conscientização, combate e prevenção da hanseníase no País, vale a pena refletir sobre a necessidade urgente de enfrentar essa doença tropical de evolução crônica, que se manifesta principalmente por meio de lesões na pele e sintomas neurológicos, como dormência e diminuição de força nas mãos e nos pés.

Ao longo das décadas, os indicadores epidemiológicos mostram que para vencer a hanseníase, ou ao menos reduzir seu impacto na sociedade, é necessário desenvolver diferentes estratégias. Somente assim será possível superar os múltiplos fatores envolvidos nessa questão.

Apesar de uma queda constante no total de novos casos identificados entre 1999, quando o Brasil contabilizou 43.617 registros da doença, e 2016, onde esse total baixou para 25.214, as estatísticas do Ministério da Saúde apontam uma pequena alta nos indicadores a partir de então, com 26.875 notificações, em 2017, e 28.657, no ano seguinte.

Em Rondônia, os números seguiram essa tendência nacional. Em 1999, haviam sido registrados 1.216 novos casos. Em 2016, esse dado baixou para 476. Contudo, nos anos seguintes a curva empinou: foram 503 notificações, em 2017, e 741, em 2018, ou seja, quase o dobro.

Importante destacar que esse comportamento não significa necessariamente uma epidemia da doença, conforme explicam os dermatologistas. Na verdade, induz a duas outras conclusões: em primeiro lugar, que, mesmo operando com precariedade, a rede pública de saúde tem sido capaz de fazer o diagnóstico dos casos de hanseníase. Por outro lado, isso indica que os fatores que permitem o avanço da doença ainda aguardam solução.

Sem políticas públicas que reduzam a desigualdade social e ofereçam aos rondonienses as condições que precisam para viver com dignidade, a hanseníase e outras doenças típicas de regiões pobres, como a tuberculose, continuarão a prosperar. Assim, recai sobre os ombros do poder público, em especial do Executivo, a missão de encontrar o caminho que combata a hanseníase pela raiz, oferecendo aos moradores do Estado o ambiente onde essa doença não consiga fazer novas vítimas.

 
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